Discutir uma escola sem partido convoca evidenciar sua impossibilidade, e não só porque é mais uma tentativa de censura — neste caso, felizmente, das mais ineficazes, porque pretende calar aqueles cuja função, por atribuição da Constituição e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, é formar crianças e jovens para a cidadania, de que são princípios fundamentais a liberdade de expressão e o desenvolvimento da criticidade; é uma impossibilidade (uma ingenuidade?) porque se constrói sobre pressupostos que não se sustentam.
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Por outro lado, se sem partido se refere a posicionamentos pessoais de professores — sociais, políticos, morais, religiosos (ideológicos?) — a falácia está em supor que o ser humano é capaz de se manter “neutro” em suas interações, sejam sociais, sejam, como pretende a escola sem partido, pedagógicas. A proibição de “doutrinação” comete o equívoco de julgar que as convicções de um ser humano, neste caso o professor, só se manifestam pela palavra: supõe-se que, proibindo a palavra, fica proibida a “doutrinação”. Um equívoco, porque não são só as palavras que expressam convicções, mas o ser humano como um todo, que, ainda que tenha a palavra proibida, revela-se por seu modo de agir, de decidir, por seus comportamentos; pode-se até tentar calar o professor, mas não se calam as mensagens que ele comunica por meios não verbais, mesmo se tenta “censurar-se”. Impossível.
Étiquette : comportamento
Quando chega a hora de voar, por Karine Rosa
O jeito que as pessoas se vestem é outro. A maneira de andar, os sapatos (ou a falta deles), as músicas que escutam sem fone no ônibus, as gírias, o sotaque e, arrisco dizer, até a forma de olhar. Tem um bocado de coisa diferente. O cheiro da praia. O silêncio porque ninguém tá gritando “bixcoito globo” ou “olha o queijo coalho” enquanto a gente toma sol. E a falta que faz uma água de coco gelada.
Muita coisa muda. Mudam as pessoas com as quais você vai esbarrando e, aos poucos, começa a chamar de amigas. As comidas que você come, as bebibas com as quais gosta de encher a cara e os tipos de lugares que você frequenta. Até as coisas nas quais você sempre acreditou – ou aquelas tantas em que você nunca quis acreditar.
Quando chega a hora de voar e a gente voa, não é só o endereço que deixa de ser o mesmo.
